O escritório aberto não foi inventado para caber mais gente

O escritório aberto não foi inventado para caber mais gente

Em 1958, dois irmãos alemães começaram a desenhar escritórios de um jeito que na época parecia loucura. Eberhard e Wolfgang Schnelle tinham crescido dentro da fábrica de móveis de escritório do pai, perto de Hamburgo, e conheciam por dentro o produto que estavam prestes a atacar.

O escritório da época era uma pauta de música: fileiras retas de mesas idênticas, todas voltadas para a mesma direção, com o chefe em uma sala fechada no fim do salão, de onde podia ver todo mundo sem ser visto. Aquilo não era estética, era doutrina. Vinha da administração científica, da ideia de que trabalho de escritório podia ser cronometrado e vigiado como uma linha de montagem.

Os irmãos Schnelle acharam aquilo simplesmente errado. Não moralmente errado, embora também achassem. Errado de funcionamento. A fileira reta era eficiente para vigiar pessoas e péssima para o que aquelas pessoas realmente faziam o dia inteiro, que era trocar informação umas com as outras.

 

A proposta deles ficou conhecida como Bürolandschaft, paisagem de escritório. Nas fotos da época, parece bagunça. As mesas aparecem espalhadas em ângulos aparentemente aleatórios, agrupadas em ilhas de tamanhos diferentes, separadas por vasos de plantas grandes e biombos curvos. Nenhuma parede. Nenhum corredor. Nenhuma sala do chefe.

Só que de aleatório não tinha nada. Antes de posicionar qualquer móvel, o time deles passava meses estudando quem naquela empresa precisava falar com quem, com que frequência, e sobre o quê. O layout era o desenho desse mapa. Duas áreas que trocavam informação o tempo todo ficavam próximas. Duas que quase não se falavam ficavam longe. As plantas e os biombos não eram enfeite, eram o instrumento que separava as ilhas sem fechar o espaço, e que segurava o som antes que ele atravessasse o andar inteiro.

O primeiro cliente foi a Bertelsmann, editora alemã que hoje é um dos maiores grupos de mídia do mundo. O trabalho levou dois anos. Não dois meses de projeto e uma semana de montagem: dois anos estudando a empresa antes de entregar o espaço.

Vale parar num detalhe que costuma passar batido, porque é onde a coisa toda se sustenta. Quando você tira as paredes de um escritório, o som vira o único separador que sobra. Não existe privacidade sem alguma forma de barreira, e se ela não é física, precisa ser acústica. Os biombos curvos e as plantas grandes eram exatamente isso: a barreira que dividia as ilhas e impedia que a conversa de um grupo chegasse ao grupo seguinte. Nenhum deles estava ali por causa da aparência.

Deu certo, e a ideia se espalhou rápido. Em poucos anos havia escritórios-paisagem na Suécia, na Inglaterra, e em 1967 o conceito atravessou o Atlântico com um projeto para a DuPont, em Wilmington. O New York Times batizou o grupo alemão de radicais.

 

Aqui a história vira, e vira por um motivo que ninguém tinha previsto.

Um dos maiores atrativos do modelo para quem o adotou, segundo os registros da época, não tinha nada a ver com o mapa de comunicação: era o custo. Sem paredes permanentes, sem alvenaria, sem reforma a cada mudança de organograma, o escritório aberto saía bem mais barato que o tradicional, e podia ser reconfigurado quando a empresa crescia ou encolhia.

O que os registros mostram com clareza é o resultado: à medida que o conceito saiu do meio alemão e virou adoção corporativa em massa, ele se descaracterizou. Sobrou a forma, andar aberto e sem paredes, sem os princípios acústicos, sem a análise de comunicação e sem a intenção de achatar hierarquia que davam sentido ao conjunto.

A explicação mais provável é a mais banal. Quando o que atrai é o preço, a parte cara do método costuma ser a primeira a sair, e a parte cara aqui eram justamente os meses de estudo antes de qualquer móvel entrar no andar.

E entre tudo que foi descartado, o som foi a perda mais cara, ainda que ninguém tenha percebido na hora. As plantas e os biombos eram o item mais fácil de cortar do orçamento, porque pareciam decoração. Sem eles, o andar continuou aberto e ficou sem nenhum separador, nem físico, nem acústico. É por isso que o open space herdado por sessenta anos de cópia incomoda de um jeito que as pessoas sentem todo dia e quase nunca conseguem nomear: elas atribuem a falta de concentração a si mesmas, quando a causa está no espaço.

Os irmãos Schnelle deixaram a própria empresa no início dos anos 70, depois de desentendimentos internos. O que sobreviveu deles foi a única coisa que era visível em uma foto: o andar aberto sem paredes. O resto, que era justamente o que fazia aquilo funcionar, ficou para trás.

No mesmo ano de 1958, do outro lado do Atlântico, a Herman Miller contratava Robert Propst para repensar o espaço individual de trabalho. O sistema que ele criou, o Action Office, nasceu de uma crítica dura ao escritório da época e terminou, duas décadas depois, transformado em fazenda de baias. Duas ideias generosas, desenhadas no mesmo ano, absorvidas pelo mesmo apetite por densidade

 

Por que isso importa para quem vai montar um escritório em 2026?

Quando alguém hoje diz que odeia open space, está reclamando de uma coisa que os irmãos Schnelle nunca desenharam. Está reclamando da casca da ideia deles, esvaziada por sessenta anos de aplicação sem método.

E a distinção não é histórica, é prática. Andar aberto não é um layout, é o resultado de um método. Sem o método, ele é só ausência de parede, e ausência de parede não organiza nada: o som viaja livre, as equipes que precisam conversar acabam separadas por acaso, e as que não têm nada a ver uma com a outra dividem a mesma mesa.

Fazer isso direito hoje não exige dois anos de consultoria alemã. Exige responder as mesmas perguntas que eles respondiam antes de encostar em um móvel: quem precisa falar com quem, onde acontece o trabalho que exige silêncio, por onde as pessoas circulam de verdade, e o que separa uma zona da outra quando não existe parede.

É exatamente esse trabalho que chamamos de ergoprodutividade, e é o que fazemos antes de propor qualquer especificação. Móvel bom instalado sobre um andar que ninguém estudou continua sendo um andar que ninguém estudou.

E se existe uma parte dessa herança que vale recuperar primeiro, é a acústica. Ela foi a mais barata de cortar e é a que cobra o preço mais alto todos os dias. A diferença é que hoje ela não depende mais de vaso de planta: existem nuvens, baffles, painéis de parede, divisores de mesa e luminárias acústicas, que resolvem o mesmo problema com desempenho medido e sem obra nenhuma. O que os irmãos Schnelle improvisavam com biombo em 1958, hoje se especifica.

 

Fontes e leitura adicional

Verbete Bürolandschaft, Bloomsbury Encyclopedia of Design. Verbete Office landscape, Wikipedia, com as referências primárias citadas ao final. Arquivo histórico da combine consulting, sucessora do Quickborner Team, em combine-consulting.com/en/heritage. Workplace Insight, sobre a difusão do conceito e o paralelo com o Action Office de Robert Propst.

 

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